A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa e transmissível, causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis. Embora afete principalmente os pulmões, pode acometer diversos outros órgãos e sistemas. O ser humano é o principal reservatório e transmissor da doença.
Oficina de
Tuberculose
Da Suspeita ao Manejo Clínico
Aspectos essenciais para a prática do enfermeiro na Atenção Básica
Panorama Global: A Tuberculose como Desafio de Saúde Pública
- O Brasil está entre os 30 países de alta carga de TB no mundo
- A doença reflete a complexidade dos determinantes sociais que perpetuam a transmissão
- Meta End TB da OMS para 2030: redução de 95% das mortes e 90% da incidência
- Fortalecimento da capacitação profissional é essencial em todos os níveis de atenção
- Pobreza e vulnerabilidade: desnutrição e falta de acesso aos serviços de saúde
- Aglomerações: ambientes fechados e superlotados facilitam a transmissão
- Populações prioritárias: PVHIV, situação de rua, privados de liberdade, povos indígenas
Tuberculose: Uma Visão Geral
Tipos de Tuberculose
- Forma mais comum da doença
- Principal via de transmissão por aerossóis
- Tosse persistente ≥ 3 semanas como sintoma principal
- Diagnóstico inicial pelo TRM-TB ou baciloscopia
- É contagiosa enquanto há eliminação de bacilos
- Afeta órgãos além dos pulmões: gânglios, ossos, meninges, pleura
- Mais frequente em PVHIV e imunossuprimidos
- Sinais e sintomas variam conforme o órgão acometido
- Em geral não é contagiosa (exceto TB laríngea)
- Inclui formas graves como TB miliar e meningoencefálica
TB Pulmonar: Adultos e Adolescentes
A tuberculose pulmonar manifesta-se principalmente por tosse persistente (seca ou produtiva) por três semanas ou mais. Sintomas sistêmicos incluem febre vespertina, sudorese noturna, emagrecimento e cansaço. A ausculta pulmonar pode apresentar desde normalidade até alterações como diminuição do murmúrio vesicular.
- Tosse seca ou produtiva ≥ 3 semanas
- Expectoração mucopurulenta ou hemoptoica
- Dor torácica pleurítica
- Hemoptise (sangue no escarro)
- Dispneia nos casos avançados
- Febre vespertina (tarde/noite)
- Sudorese noturna intensa
- Emagrecimento progressivo
- Fadiga e astenia
- Inapetência (redução do apetite)
Tuberculose Extrapulmonar: Principais Formas
- Aumento indolor e assimétrico dos gânglios linfáticos
- Mais comum na região cervical
- Apresentação extrapulmonar mais frequente em crianças e PVHIV
- Cefaleia persistente, irritabilidade, vômitos, rigidez de nuca
- Mais prevalente em crianças < 6 anos
- Requer tratamento prolongado — 9 a 12 meses
- Afeta predominantemente a coluna vertebral
- Dor lombar persistente + sudorese noturna intensa
- Pode levar a deformidades e comprometimento neurológico
- Bacilo "escapa" para a corrente sanguínea e se dissemina
- Febre prolongada, emagrecimento progressivo, astenia severa
- Particularmente grave em imunocomprometidos (HIV)
Diagnóstico Clínico e Exame Físico
- Anamnese e exame físico são essenciais na avaliação diagnóstica
- Buscar a Tríade Clássica: tosse persistente + perda de peso + inapetência
- Buscar o Quarteto Clínico: + febre vespertina + sudorese noturna
- Ausculta pulmonar pode revelar alterações ou ser completamente normal
- Exame físico normal não exclui o diagnóstico de TB
Transmissão da Tuberculose
A transmissão ocorre por via aérea, pela inalação de aerossóis expelidos por pessoas com TB pulmonar ou laríngea ativa ao tossir, espirrar, falar ou cantar. Somente essas formas da doença são transmissíveis.
TB Laríngea
Abordagem Diagnóstica Laboratorial
| Exame | Indicação | Observação |
|---|---|---|
| TRM-TB (Teste Rápido Molecular) | Exame inicial de escolha para TB pulmonar e extrapulmonar, adultos e crianças | Detecta TB ativa E resistência à Rifampicina · Resultado em ~2h |
| Baciloscopia de escarro | Onde não há TRM-TB · Acompanhamento mensal do tratamento | 2 amostras · Coleta pela manhã · Analisa presença de bacilos álcool-ácido resistentes |
| Cultura para micobactéria | Padrão-ouro · Retratamento · Falha terapêutica · Suspeita de resistência | Alta sensibilidade e especificidade · Permite TSA (teste de sensibilidade) |
| IGRA (Interferon-gama) | Diagnóstico de ILTB quando PT indisponível ou em vacinados com BCG | Exame de sangue · Não sofre interferência da vacina BCG |
Diagnóstico por Imagem
Os exames de imagem são complementares ao diagnóstico laboratorial — não são confirmatórios isoladamente.
- Exame de imagem inicial e obrigatório na suspeita de TB pulmonar
- Pode revelar: infiltrados, cavidades, nódulos (especialmente lobos superiores)
- Indicado para todos os contatos, mesmo assintomáticos
- Importante para rastreio de ILTB e avaliação de sequelas
- Mais sensível que a radiografia simples
- Indicada em casos de dúvida diagnóstica
- Melhor avaliação da extensão e distribuição das lesões
- Útil em TB extrapulmonar e formas atípicas
Prova Tuberculínica (PT / PPD / Mantoux)
Uma pequena quantidade de proteína purificada do bacilo (tuberculina) é injetada superficialmente na pele do antebraço. Após 48 a 72 horas, mede-se o tamanho da área endurecida (induração — não apenas a vermelhidão) que se forma no local.
| Resultado | Interpretação | Indicação de tratamento |
|---|---|---|
| ≥ 5 mm | Reator — imunossuprimidos, PVHIV, contatos de TB, sequelas fibróticas, uso de TNF-α, pré-transplante | Tratar ILTB se indicação clínica |
| ≥ 10 mm | Reator — contatos de TB em geral, profissionais de saúde, silicose, neoplasias, IRC em diálise, DM, tabagistas | Tratar ILTB conforme protocolo |
| Conversão | 2ª PT com incremento ≥ 10 mm em relação à 1ª | Indicação de tratamento independente do valor absoluto |
| Não reator | Pode ser falso negativo em imunocompromido ou TB ativa recente | Repetir se necessário ou usar IGRA |
Coleta de Escarro de Qualidade
- Horário: Pela manhã ao acordar — secreção acumulada nos pulmões durante a noite é mais abundante e concentrada
- Higiene bucal: Apenas bochechos com água. NÃO usar creme dental, antissépticos ou próteses — podem interferir no resultado
- Local: Aberto e arejado, ao ar livre, para reduzir risco de transmissão
- Técnica: Inspirar profundamente, prender a respiração um instante, tossir com força para expelir secreção de dentro dos pulmões
- Frasco: Depositar no pote plástico com tampa rosca fornecido pela UBS. Evitar que o escarro vá para a parte externa do recipiente
- Quantidade ideal: 5 a 10 mL (linha no pote). Boa amostra tem aspecto mucopurulento — não saliva!
Investigação de Contatos de TB
- Raio-X de tórax — obrigatório para todos, mesmo sem sintomas
- Prova tuberculínica (PPD) — leitura após 48–72h, medir induração
- Rastrear para ILTB e indicar tratamento preventivo (TPT) se elegível
- Priorizar crianças < 5 anos e PVHIV para avaliação imediata
- TRM-TB — exame inicial de escolha (detecta TB e resistência à Rif)
- Baciloscopia — complementar ou quando não há TRM-TB disponível
- Cultura — se suspeita de resistência, retratamento ou falha
- Raio-X de tórax — sempre associar à investigação
Tratamento da TB Ativa: Esquema Básico
- R — Rifampicina
- H — Isoniazida
- Z — Pirazinamida
- E — Etambutol
- R — Rifampicina
- H — Isoniazida
Alertas de Manejo para o Enfermeiro
A medicação deve ser tomada em dose única, preferencialmente 1 hora antes ou 2 horas após o café da manhã, para garantir a absorção máxima da Rifampicina. Jejum não é obrigatório, mas aumenta a absorção.
Se o paciente ganhar muito peso durante o tratamento (comum após melhora do apetite), a dose deve ser recalculada na consulta de enfermagem mensal. Dosagem baseada em kg.
A DCF (comprimidos 4 em 1 ou 3 em 1) aumenta significativamente a adesão e reduz o erro de dosagem. Orientar sobre a importância de não interromper o tratamento mesmo com melhora dos sintomas — recidiva e resistência são os maiores riscos.
- Icterícia, colúria, acolia fecal → suspender e encaminhar URGENTE
- Visão turva, alteração de cores → suspender Etambutol
- Exantema extenso → avaliar gravidade, suspender se grave
- Escarro positivo após 2º mês → solicitar cultura + TSA
TB Drogarresistente: O Regime BPaL (2025–2026)
- B — Bedaquilina
- Pa — Pretomanida
- L — Linezolida
- Fim da necessidade de aplicação diária de injetáveis
- Esquema totalmente oral — maior conforto para o paciente
- Duração reduzida: 6 meses vs. até 20 meses anteriormente
- Menor toxicidade e melhor qualidade de vida
- Facilita a adesão ao TDO e o acompanhamento ambulatorial
- Recomendado pela OMS e incorporado no Brasil por Nota Técnica do PNCT
Infecção Latente da TB (ILTB) e Tratamento Preventivo (TPT)
A ILTB é o "estado de sono" do bacilo no corpo — a pessoa foi infectada, mas o sistema imunológico foi capaz de conter a multiplicação. Não está doente e não transmite. O risco: se a imunidade enfraquecer (HIV, DM, imunossupressores), os bacilos podem reativar.
Fluxo para iniciar o TPT:
- Avaliar sintomas de TB ativa (tríade/quarteto clínico)
- Realizar Raio-X de tórax
- Se sintomas ou Rx alterado → solicitar TRM-TB
- Só iniciar TPT após descartar TB ativa — nunca monoterapia em doença ativa
- PT ≥ 5 mm (imunossuprimidos) ou ≥ 10 mm (demais) → indicar TPT
- PVHIV com CD4 ≤ 350: tratar mesmo sem PT/IGRA
Esquema 3HP: Regime Preferencial do TPT
- Composição: Rifapentina (P) + Isoniazida (H) em dose combinada
- Frequência: Uma vez por semana (apenas 12 doses!)
- Duração: 3 meses (12 semanas)
- Eficácia: Superior a 90%
- Vantagem: Menor hepatotoxicidade, maior adesão
- Contatos domiciliares de casos bacilíferos
- PVHIV independentemente da PT
- Candidatos ao uso de imunobiológicos (anti-TNF-α)
- Profissionais de saúde expostos
- Pessoas em situação de rua e população privada de liberdade
| Esquema | Medicamento | Duração / Doses | Observação |
|---|---|---|---|
| 3HP (preferencial) | Rifapentina + Isoniazida | 3 meses / 12 doses semanais | Melhor adesão, menor hepatotoxicidade |
| 6H | Isoniazida | 6 meses / 180 doses diárias | Alternativa — mais disponível |
| 9H | Isoniazida | 9 meses / 270 doses diárias | Maior eficácia que o 6H |
| 4R | Rifampicina | 4 meses / 120 doses diárias | Alternativa quando H contraindicada |
TDO e Consulta de Enfermagem
O Tratamento Diretamente Observado (TDO) é a estratégia fundamental para o sucesso do tratamento. A presença do profissional no momento da tomada da medicação garante a adesão e permite identificação precoce de reações adversas.
Manejo de Reações Adversas aos Tuberculostáticos
- Náuseas, vômitos, dor abdominal
- Orientar tomada com alimento leve
- Avaliar necessidade de antiemético
- Nunca suspender sem avaliação clínica
- Icterícia, colúria (urina escura), acolia fecal (fezes claras)
- Suspender IMEDIATAMENTE todos os tuberculostáticos
- Encaminhar para avaliação médica urgente
- Solicitar TGO, TGP, bilirrubinas, fosfatase alcalina
- Prurido, exantema, eritema
- Síndrome de Stevens-Johnson (raro — mas grave)
- Avaliar gravidade: leve → anti-histamínico + manter medicação
- Grave → suspender e encaminhar urgente
- Diminuição da acuidade visual, dificuldade para distinguir cores (discromatopsia)
- Suspender Etambutol imediatamente
- Encaminhar para oftalmologia
- Monitorar visão mensalmente durante o tratamento
Caso Prático para Discussão
| 01 — Qual exame solicitar primeiro? | TRM-TB (Teste Rápido Molecular) — exame inicial de escolha. Detecta TB ativa e resistência à Rifampicina em ~2h. Se indisponível: baciloscopia de escarro (2 amostras). |
| 02 — Resultado: TB sensível detectada. Qual o plano? | Esquema RHZE por 2 meses (fase intensiva) + RH por 4 meses (manutenção). Dose única, 1h antes do café. Calcular dose para 60 kg. Iniciar TDO. Notificar no SINAN em até 7 dias. |
| 03 — Como investigar os contatos domiciliares? | Raio-X de tórax para todos (esposa e 2 filhos). PT/PPD. Crianças de 8 e 12 anos: prioridade máxima — se <5 anos, iniciar TPT independente da PT. Avaliar sintomas em todos. |
| 04 — Orientação para coleta de escarro de qualidade? | Pela manhã ao acordar, local arejado, bochechos com água, inspirar fundo, tossir com força, depositar no pote, quantidade 5–10 mL, aspecto mucopurulento. |
| 05 — Tríade clássica para suspeita de TB? | Redução do apetite + Perda de peso + Tosse crônica (≥3 semanas). Quarteto: + Febre vespertina + Sudorese noturna. |
Checklist Essencial para a Prática Clínica
- Máscara N95/PFF2 no atendimento de pacientes bacilíferos
- Orientar paciente sobre etiqueta respiratória
- Coleta de escarro em ambiente aberto e arejado
- Isolamento respiratório em ambiente hospitalar até negativação do escarro
- Todo caso confirmado de TB deve ser notificado no SINAN em até 7 dias
- A notificação alimenta a vigilância epidemiológica
- Permite monitoramento de indicadores municipais e nacionais
- ILTB em tratamento: notificar no sistema IL-TB
- Identificar e avaliar todos os contatos domiciliares e próximos
- Priorizar crianças <5 anos e PVHIV para avaliação e TPT
- Raio-X de tórax + PT/PPD para todos os contatos
- Sintomáticos respiratórios: TRM-TB imediatamente
- Baciloscopia mensal durante o tratamento
- Recalcular dose se variação de peso significativa
- Avaliar reações adversas em cada consulta
- Fortalecer adesão ao TDO em cada contato
Pontos de Ouro para Levar para Casa
- Suspeitar de TB em todo paciente com tosse ≥ 3 semanas + pelo menos 1 sintoma sistêmico
- TRM-TB é o exame inicial de escolha — solicitar sempre que disponível
- Exame físico normal e raio-X normal NÃO excluem o diagnóstico de TB
- Apenas TB pulmonar e laríngea são transmissíveis — usar N95 no atendimento
- Após ~15 dias de tratamento o risco de transmissão diminui significativamente
- A Dose Combinada Fixa (DCF) aumenta a adesão — orientar tomada 1h antes do café
- Hepatotoxicidade (icterícia, colúria) = suspender todos os tuberculostáticos imediatamente
- ILTB: só iniciar TPT após descartar TB ativa — nunca monoterapia em doença ativa
- Esquema 3HP (Rifapentina + Isoniazida) é o regime preferencial do TPT — 12 doses semanais
- Notificação no SINAN em até 7 dias — o enfermeiro é o elo entre o paciente e o controle da TB
"O enfermeiro é o elo entre a cura do paciente e o controle da doença na comunidade. Sua atuação competente, humanizada e baseada em evidências científicas é fundamental para alcançarmos as metas da Estratégia End TB."
Michelle Juliana Vieira Gomes
Enfermeira · Especialista em Gestão em Saúde Pública
Mestranda em Administração — UNIR · FIMCA · Supervisonado I